Quando o Pacífico Muda de Sinal: El Niño e o Novo Mapa do Arroz Global para 2026-27

Por dois anos, o mercado global de arroz operou sob o signo da abundância. Safras recordes, retomada das exportações asiáticas após restrições governamentais e estoques em patamares historicamente elevados combinaram para derrubar preços e aliviar pressões inflacionárias em todo o mundo. O ciclo, no entanto, está mudando de sinal — e quem opera no mercado de arroz já deveria ter notado.

A La Niña se encerrou. O Pacífico Equatorial entrou em condição de neutralidade, e as projeções mais recentes do Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (CPC/NOAA) apontam 61% de chance de emergência do El Niño no trimestre maio-julho de 2026, com persistência projetada pelo menos até o final do ano. Os modelos do Instituto Internacional de Pesquisa Climática e Social (IRI), da Universidade de Columbia, são mais assertivos: indicam 70% de chance de El Niño se desenvolver em abril-junho de 2026, com o fenômeno permanecendo dominante pelo restante do ano a probabilidades entre 88% e 94%.

O que ainda não está definido é a intensidade. Os resultados possíveis variam de ENSO-neutro a um El Niño muito forte durante o inverno do Hemisfério Norte — com aproximadamente 1 em 4 chance de evento muito forte (anomalia Niño-3.4 acima de +2,0°C), dependendo da continuidade das anomalias de vento no Pacífico ao longo do verão boreal, o que não está assegurado.

Para o mercado de arroz, essa incerteza não é motivo de indiferença. É exatamente o tipo de janela em que posicionamento antecipado faz diferença.

O que El Niño significa para o arroz

El Niño e La Niña são fases opostas do mesmo sistema climático no Pacífico tropical. Enquanto La Niña resfria as águas equatoriais e tende a intensificar as monções no Sudeste Asiático, El Niño aquece a superfície do oceano e produz o efeito contrário: condições mais quentes e secas na principal região produtora de arroz do mundo, e excesso de chuvas no Sul da América do Sul.

O histórico dos episódios anteriores delimita o espectro de impactos possíveis. O evento intenso de 2015-2016 provocou seca severa na Austrália e no Sudeste Asiático, enfraqueceu as monções indianas e reduziu a produção de cereais na região. Um episódio moderado, como o de 2009-2010, trouxe tempo seco que afetou colheitas de arroz na Índia e no Sudeste Asiático. A analogia histórica não é uma previsão, mas oferece referência concreta sobre o que está em jogo caso o fenômeno se confirme e ganhe intensidade.

A Ásia sob pressão: seca, monção e custo crescente

O Sudeste Asiático é onde o sinal climático se converte mais diretamente em risco de produção. Em episódios de El Niño, a região tende a enfrentar condições mais secas e quentes, com enfraquecimento das monções e ondas de calor mais frequentes — padrão que afeta diretamente países como Indonésia, Vietnã, Tailândia e Filipinas, responsáveis por uma parcela expressiva das exportações e do consumo global de arroz.

A Índia merece atenção particular. Maior exportadora global, com participação estimada pelo USDA em torno de 40% das exportações mundiais nos últimos anos, o país enfrenta a perspectiva de monções abaixo da média pela primeira vez em três anos, com projeções de precipitação entre 70% e 90% da média histórica em alguns cenários — com impacto potencial direto nas culturas de verão, entre elas o arroz.

Entre os importadores, as condições também se estreitam. Filipinas e Indonésia, que dependem de importações para complementar a produção doméstica, terão menos margem de manobra caso El Niño reduza sua produção local e os principais exportadores, pressionados simultaneamente, optem por proteger seus estoques nacionais. A maioria dos produtores asiáticos cultiva duas ou três safras de arroz por ano — o que significa que um evento climático que afete o plantio principal de junho-julho repercute ao longo de todo o ciclo anual.

Sobre esse quadro pesa ainda um fator geopolítico que merece acompanhamento: o conflito no Irã eleva incertezas sobre o fornecimento de combustível e fertilizantes via Estreito de Ormuz, rota crítica para os mercados asiáticos. A extensão real desse impacto logístico sobre os fluxos de insumos depende da evolução do conflito, mas já se reflete no comportamento dos agricultores da região. O economista-chefe da FAO, Maximo Torero, resumiu o diagnóstico: "Os agricultores já começaram a plantar arroz em alguns países e estão usando menos insumos porque os preços subiram. Veremos uma situação de oferta global mais apertada na segunda metade do ano e no início do próximo."

Brasil: excesso de água no Sul, oportunidade no mercado externo

Para o Brasil, El Niño opera em duas frentes com sinais opostos.

No Sul do país, onde se concentra a orizicultura nacional, o fenômeno tende a intensificar as chuvas. Para o arroz irrigado das várzeas gaúchas, isso não é necessariamente uma vantagem: o risco de atrasos de implantação e enchentes nas várzeas é real, enquanto a semeadura pode encontrar janelas curtas e solos saturados. O Rio Grande do Sul, que ainda assimila os impactos estruturais das enchentes de 2024, ingressa nesse ciclo com infraestrutura de drenagem mais sensível do que o habitual.

Por outro lado, a mesma dinâmica que comprime a oferta asiática abre janelas de competitividade para o Mercosul. Quando Índia, Tailândia e Vietnã enfrentam safras menores e recorrem a restrições de exportação para proteger seus mercados domésticos — estratégia recorrente nesses ciclos — compradores da África Subsaariana, do Oriente Médio e da própria Ásia passam a buscar alternativas. O Cone Sul está entre elas. Para o produtor e exportador brasileiro, o cenário exige leitura dupla: proteção da safra doméstica frente ao excesso hídrico no Sul e posicionamento estratégico para aproveitar a contração da oferta asiática nos mercados internacionais.

Estoques como amortecedor — e seus limites

O principal diferencial que distingue o ciclo 2026-27 dos episódios de El Niño mais antigos é a existência de um volume expressivo de estoques globais acumulados. De acordo com o Rice Outlook do USDA de abril de 2026, os estoques finais globais de arroz para o ciclo 2025-26 estão projetados em 192,3 milhões de toneladas. China e Índia respondem juntas pela maior parte desse total — a China com cerca de 55% e a Índia com aproximadamente 25% —, em grande parte devido a programas governamentais de estocagem.

Esse colchão é relevante e explica por que o mercado ainda não precificou com urgência o risco climático em formação. Mas a lógica dos estoques governamentais tem uma limitação estrutural conhecida: quando El Niño compromete safras consecutivas ou ganha intensidade inesperada, os países que detêm esses volumes os utilizam prioritariamente para proteger populações domésticas — e restringem exportações. Foi o que a Índia fez em 2023, e o padrão se repete em diferentes graus a cada ciclo de pressão sobre a oferta. Tailândia, Vietnã e Índia já sinalizaram, em diferentes momentos, restrições temporárias às exportações de arroz para garantir estoques domésticos — estratégia que historicamente amplifica a volatilidade de preços exatamente quando o mercado mais precisaria de estabilidade.

O ciclo de preços e a janela que se abre

O contexto de preços que antecede esse ciclo é relevante para compreender o que está em jogo. Ao longo de 2025, os preços do arroz acumularam quedas expressivas nos principais mercados — resultado direto da recomposição da oferta asiática após as restrições de exportação indiana. No Brasil, os preços recuaram de forma acentuada, chegando a patamares que comprometeram a rentabilidade de produtores em diversas regiões.

Esse cenário de excedente e pressão baixista pode estar se encerrando. Análises do setor apontam que um evento El Niño leve pode causar interrupção limitada na produção, mas um evento mais forte e prolongado tem potencial de levar a quedas de 5% a 12% na produção de culturas sensíveis ao clima no Sudeste Asiático. Para um mercado que depende da Ásia para aproximadamente 90% de sua produção, esses percentuais se traduzem rapidamente em pressão de preço — e o CEO da Camil, Luciano Quartiero, já sinalizou que o El Niño pode atrasar o plantio da próxima safra, restringendo a oferta.

O dado climático como vantagem operacional

A transição do clima como variável de fundo para ativo de inteligência é o que diferencia a gestão de risco moderna no mercado de grãos. Os ciclos ENSO são previsíveis com antecedência de meses — não com certeza, mas com probabilidade crescente à medida que os sinais oceânicos se consolidam. Quem incorpora essa leitura no processo de decisão opera com uma vantagem temporal que o mercado ainda não precificou completamente.

O ponto central não é afirmar que o El Niño de 2026-27 será catastrófico — as projeções não permitem essa conclusão. O ponto é que a probabilidade de um evento relevante é suficientemente alta para justificar monitoramento ativo e revisão das estratégias de compra, cobertura e posicionamento de contratos antes que o risco esteja inteiramente incorporado nos preços.

O mercado de arroz não perdoa quem trata o clima como surpresa.

Referências

NOAA – CPC/Climate Prediction Center. ENSO Diagnostic Discussion – Final La Niña Advisory / El Niño Watch. 9 abr. 2026. Disponível em: https://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso_advisory/ensodisc.pdf

IRI – International Research Institute for Climate and Society / Universidade de Columbia. April 2026 Quick Look – ENSO Forecast. Meados de abr. 2026. Disponível em: https://iri.columbia.edu/our-expertise/climate/forecasts/enso/current/

INMET – Instituto Nacional de Meteorologia. El Niño em 2026? Nota técnica sobre impactos na agricultura brasileira. Mar. 2026. Disponível em: https://portal.inmet.gov.br

USDA – Economic Research Service. Rice Outlook: April 2026 (RCS-26C). 13 abr. 2026. Disponível em: https://ers.usda.gov

FAO – Food and Agriculture Organization. Declaração de Maximo Torero, economista-chefe. Reproduzida por agências internacionais. Maio 2026. Disponível em: https://www.fao.org

Agrolink. El Niño 2026/2027 se forma no Pacífico: produtor do Sul precisa começar a se preparar agora. Maio 2026. Disponível em: https://www.agrolink.com.br

Conexão Safra. El Niño de 2026/2027 pode repetir a força e os impactos do fenômeno de 2015/2016? Abr. 2026. Disponível em: https://conexaosafra.com

CNN Brasil / Meteomatics. El Niño mais forte em uma década ameaça colheitas globais. Abr. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br

Público (Portugal). Como é que o El Niño pode afectar o tempo em todo o mundo em 2026 e 2027? Abr. 2026. Disponível em: https://www.publico.pt

The AgriBiz. O arroz pode ficar mais caro em 2026. A culpa é do El Niño. Maio 2026. Disponível em: https://www.theagribiz.com

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